Review | O Vale da Montanha Branca por Endrigo Mignoni

Então, muitos e muitos meses depois de ter deixado o lar, Sho percebeu uma grande luminosidade à sua frente. Parecia que a floresta terminava ali adiante. Mas não conseguia enxergar além, a visão ofuscada pela claridade. Com o coração batendo forte, caminhou em direção à luz. Conforme os seus olhos se iam acostumando, conseguiu ver as árvores um lago imenso, casas coloridas. Ao fundo, vislumbrou o que parecia ser uma cidade de pedra na base da gigantesca montanha. Era magnífica, muito maior do que ele imaginara. Parou e ficou admirar aquele monte de pedra, perplexo. Não era possível visualizar o seu topo, mas nas partes mais altas podia ver o branco da neve, tal como contava a lenda.” 4/5 estrelas!

Atenção! Este livro contém: figueiras, carvalhos, cestos de fruta, enchentes, floristas, cientistas, framboesas, gatos governantes, estátuas, coelhos de estimação, diários, muros, votações, novas religiões, olhos muito azuis e jornais.

Num lugar não muito distante, mas também não muito perto, o num tempo que já pode ter passado, ou talvez ainda nem tenhachegado, existiu, existe ou existirá uma pequena cidade à sombra de uma enorme montanha, de pedra branca e com o topo eternamente coberto de neve. Nela, aconteceram, acontecem ou acontecerão os factos narrados neste livro.
Não se trata de um local místico, mitológico ou de qualquer maneira fantástico mas sim de uma cidade perdida no tempo e no espaço, com seus próprios costumes, leis, cultura, qualidades e defeitos. Até a língua falada não é parecida com nada que já tenhamos escutado. O dinheiro, então, não valeria sequer um centavo de nossa moeda. Mas a vida lá… Bem, talvez essa se pareça um pouco com a que vivemos atualmente. Afinal, por mais que o homem se tenha espalhado pelo planeta, e ido até além dele, convenhamos que adversidades, conflitos e situações de toda a natureza teimam em se repetir.

Afinal, se surge uma pessoa com a solução para um problema, sempre haverá duas outras, uma para contestar a solução dada e a outra para apontar dois novos problemas. Portanto, caro leitor, aproveite a história a seguir e não se sinta incomodado se algum dos casos narrados se confundir com sua realidade. Pois se cada sociedade possui as suas questões a resolver, e elas tanto se parecem, esta, com certeza, resume, pelo menos, uma parte da experiência chamada humanidade.

Fiquei muito impressionada com este livro. A história contada é brilhante e captou a minha atenção desde o início! Este livro retrata a história das várias gerações da civilização do Vale da Montanha Branca. Apesar de haver uma história principal, são contados diferentes acontecimentos que retratam as diferentes situações políticas, conflitos, hábitos e tradições do povo ao longo dos anos. 

Apesar do tom humorístico ao longo do livro, é impossível não perceber a crítica política por detrás da história. Fez-me refletir sobre a facilidade com que se geram conflitos (mesmo sendo ridículos) dentro de uma sociedade e quão difícil pode ser geri-los e agradar a toda a população. E é exatamente por isso que é possível reconhecer este tipo de situações na nossa sociedade dos dias de hoje. E isto não se aplica apenas à política, mas também ao poder dos media e ao poder judicial, como também foi mencionado no livro várias vezes.

Existem algumas personagens fixas que vão aparecendo ao longo do livro, como por exemplo o jovem que trabalha na loja de flores do Senhor 11, mas existem também personagens mais passageiros. Achei muito interessante este formato e a forma como as histórias se cruzaram ao longo do livro!

Confesso que não estava à espera do final. Foi uma forma muito imprevisível e interessante de terminar o livro! Precisei de uns minutos para processar o que tinha acabado de ler, mas fiquei muito feliz com a decisão que o autor tomou. Foi a forma perfeita para terminar o livro, na minha humilde opinião!

Um dos meus aspetos preferidos do livro é a escrita. Apesar de ter um peso político, a história é muito fácil de acompanhar e o tom divertido faz-nos querer continuar a ler! Há sempre algo a acontecer em cada capítulo. Por exemplo, tão depressa os cidadãos discutem se seria bom ou mau erguer um muro em torno da cidade para ficarem protegidos de intrusos, como é tomada a decisão de se deixar de consumir framboesas (mesmo não se sabendo bem porquê). 

Reparei que foram utilizados muitos termos e expressões em português do Brasil ao longo do livro (o que faz sentido, dada a origem do autor). Pessoalmente, o uso de expressões e termos em português do Brasil não me dificultou a leitura, mas compreendo que possa dificultar a outros leitores portugueses.

O autor fez um excelente trabalho ao criar uma história memorável em torno das várias gerações da população do Vale da Montanha Branca. Recomendo este livro inesquecível a todos os leitores. Vou levar esta história comigo para o resto da minha vida!

xoxo,

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  1. Pingback: Wrap-Up | What I Read in June 2021 – Sprayed Edges

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